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Uma família

Uma família
Fotografía: Haroldo Nogueira.
Redacción
Felipe Rocha
Publicado el
7 de junio 2022

Abel Ferreira

Palmeiras, 2020-Presente

A minha forma de viver é muito intensa, é muito diariamente. É viver o aqui e o agora.

O que vai acontecer a seguir, tem seu tempo. Eu, na minha vida profissional, faço da mesma maneira.

Vou contar duas histórias sobre quando cheguei ao Palmeiras. A primeira: as pessoas questionavam por que eu, quando cheguei aqui, era um treinador que não tinha títulos. Mas as pessoas deveriam ter se questionado por que clubes pagaram por mim, um treinador sem títulos.

Por que um clube como o PAOK foi a Braga e pagou 3 milhões de euros? Por que o Palmeiras foi ao PAOK pagar pela minha contratação? Este treinador ainda não foi despedido! Estou à espera que aconteça. Mas ainda não fui despedido.

E as pessoas, em vez de pensarem nisso, pensaram na ausência de títulos. Certo, mas que clubes treinei? Onde trabalhei para ter essa possibilidade de ganhar títulos?

Abel Ferreira chegou ao SC Braga em 2015 para treinar o time B e foi promovido ao time principal, que comandou entre 2017 e 2019. Sua missão seguinte, antes de chegar ao Palmeiras, foi no PAOK. Octavio Passos/Getty Images.
Abel Ferreira chegou ao SC Braga em 2015 para treinar o time B e foi promovido ao time principal, que comandou entre 2017 e 2019. Sua missão seguinte, antes de chegar ao Palmeiras, foi no PAOK. Octavio Passos/Getty Images.

O Palmeiras fez três entrevistas comigo antes de me escolher. O clube sabia muito bem quem estava a contratar. Sabia como eu jogava.

E a segunda história, ninguém sabe: fui contra tudo e contra todos da minha família. Meus pais disseram: ‘Não vás! Não vás! Não vás!’’. A minha mulher disse: ‘Não vás! Não vás! Não vás!’’ Eu disse-lhe: ‘Se tu gostas de mim, vais continuar a gostar, mas eu vou’.

Fui contra toda a minha família. Ninguém queria que eu viesse. Ninguém. Eu vim, única e exclusivamente por convicção própria. Mesmo sabendo que a média de permanência dos treinadores no Brasil são três meses.

''As pessoas questionavam por que eu, quando cheguei aqui, era um treinador que não tinha títulos''

Mas eu queria ter uma boa equipe ao meu dispor. Só que cheguei e vi uma equipe que, acima de tudo, lhe faltava acreditar em si mesma. Uma equipe que lhe faltava carinho. Faltava ouvir os atletas. Muitas vezes, o treinador fala, fala, fala, fala, fala e esquece de ouvir o outro lado.

Depois, quando tens uma estrutura como a do Palmeiras, só tens que pegar na tua filosofia de jogo, que nada mais é do que uma filosofia de estar na vida que transporto, de forma particular, ao futebol.

Abel não valoriza apenas os títulos conquistados com o Palmeiras. O treinador português destaca especialmente a união do grupo. Ricardo Moreira/Getty Images
Abel Ferreira não valoriza apenas os títulos conquistados com o Palmeiras. O treinador português destaca especialmente a união do grupo. Ricardo Moreira/Getty Images

Portanto, conseguimos criar aqui uma família de trabalho. Conseguimos que os jogadores realmente confiassem em si próprios. Que acreditassem que eram muito melhores do que aquilo que pensavam.

Neste momento, diria que os meus jogadores são capazes de jogar sem treinador.

Sim, eu sei que se ao cabo de três meses fosse mandado embora, a minha família diria: ‘Estás a ver? Dissemos que não deverias ir…’. Mas para quê iria gastar energia com isso? Prefiro focar nas coisas que controlo.

''Fui contra toda a minha família. Ninguém queria que eu viesse. Ninguém. Eu vim, única e exclusivamente por convicção própria’'

Eu não consigo me lembrar dos troféus. Consigo me lembrar dos relacionamentos, dos afetos que criamos aqui, da família. A Libertadores, a taça, não é isso que me vem à mente. Vem todo o trabalho, todo o sofrimento, o atravessar o Atlântico e deixar a minha família para trás.   

Isso foi duro, muito duro. E, no momento das primeiras conquistas, tu dizes: ‘Valeu a pena!’. Na final da Copa Libertadores da América de 2020, contra o Santos, jogamos no Maracanã, para mim, o templo do futebol. Mas jogamos com portões fechados por causa da pandemia. Não é o ambiente ideal para um jogo daquela dimensão. Mas procuro olhar para as coisas de uma forma positiva.

Palmeiras e Santos disputaram a final da Copa Libertadores de 2020 num Maracanã sem público. Ricardo Moraes - Pool/Getty Images
Palmeiras e Santos disputaram a final da Copa Libertadores de 2020 num Maracanã sem público. Ricardo Moraes - Pool/Getty Images

Tínhamos uma equipe muito jovem. Se o Maracanã estivesse cheio, não sei como o Danilo, o Patrick de Paula e o GabrielMenino, por exemplo, iriam lidar com aqueles momentos, não é?

Eu sabia como era, 21 anos depois, ter a oportunidade de voltar a ganhar a competição. E, jogando no Maracanã, que é o templo do futebol. Além disso, com as nossas famílias, que foram convidadas, presentes no estádio.

''O futebol é praticado por seres humanos. Achamos que os jogadores são máquinas, mas são homens’'

Lembro-me de estar a gritar - e isto ouve-se na televisão -, pouco antes do gol: ‘Família, família, família, família’. Antes da partida, o Weverton tinha passado a seguinte mensagem ao grupo: ‘Galera, durante o jogo, se tivermos dificuldades, olhem para cima e lembrem-se da nossa família. Quando for preciso buscar uma energia extra, vejam a nossa família’.

Peguei aquele gatilho. Vocês reparem, estou lá a gritar nos últimos 5 minutos: 'Família, família, família’.

O Palmeiras bateu o Santos e conquistou a Libertadores de 2020. Título que o clube não vencia fazia 21 anos. Mauro Pimentel – Pool/Getty Images
O Palmeiras, com Abel Ferreira, bateu o Santos e conquistou a Libertadores de 2020. Título que o clube não vencia fazia 21 anos. Mauro Pimentel – Pool/Getty Images

O certo é que foi um momento fabuloso. É muito difícil descreveres o que sentes. Colocar em palavras aquele sentimento. É quase como perguntar a uma mãe o que é ser mãe. Acho que só entende quem sente e passa por uma experiência igual.

O futebol é praticado por seres humanos. Achamos que os jogadores são máquinas, mas são homens. E precisam ser tratados como tal. Eles têm medos, angústias, ansiedades e problemas em casa. Isto, para mim, é um dos segredos: olhares para o jogador como um homem, e não como um jogador.

''Não pode ser a derrota a alterar o nosso caminho. A derrota faz parte do sucesso. É bom que as pessoas entendam isso’’

Por isso, o treinador tem que ser flexível. Tem que ser um pai, tem que ser um amigo. Às vezes, tem que ser duro. Quando passo uma reprimenda à minha filha, não quero que ela seja pior, quero que seja melhor.

Quando os jogadores entendem isso, tudo fica mais fácil. E conseguimos criar essa relação de frontalidade entre nós. Uma relação de verdade.

Algo fundamental.

Apenas três meses após chegar ao Brasil, Abel Ferreira conquistava a Libertadores da América de 2020. Ricardo Moraes - Pool/Getty Images
Apenas três meses após chegar ao Brasil, Abel Ferreira conquistava a Libertadores da América de 2020. Ricardo Moraes - Pool/Getty Images

Meus valores não mudaram nada desde que cheguei aqui. A única coisa que mudou é que tenho mais títulos. E as pessoas te reconhecem mais. Mas os meus princípios e a minha maneira de ser são exatamente iguais.

Outra diferença é estar muito mais exposto agora do que quando estava no Braga. O Braga é o quarto clube em Portugal e vim para o maior campeão brasileiro, num país de mais de 200 milhões de habitantes. É outra dimensão. Outra grandeza.

Mas os comportamentos são os mesmos de antes. 

''Vim para o maior campeão brasileiro, num país de mais de 200 milhões de habitantes. É outra dimensão. Outra grandeza’’

Eu e minha comissão técnica publicamos um livro intitulado ‘Cabeça fria, coração quente’. É um livro sensivelmente didático, que retrata as nossas experiências no Brasil. É um livro, acima de tudo, solidário. Está tudo lá, detalhado ao pormenor.

Por falar em minha equipe técnica, quero dizer que nossa estrutura é muito bem dividida. O Carlos Martinho é responsável pela análise da nossa equipe. O Tiago Costa, pela análise do adversário. VitorCastanheira faz a ligação direta com a formação. E o João Martins cuida do núcleo de saúde e performance. Todos eles são treinadores.

Abel ressalta a importância de sua comissão técnica no trabalho à frente do Palmeiras. Ricardo Moreira/Getty Images
Abel Ferreira  ressalta a importância de sua comissão técnica no trabalho à frente do Palmeiras. Ricardo Moreira/Getty Images

Portanto, debatemos muito as questões de treino e de estratégia de jogo, que não passam de detalhes. Com o tempo, fui aprendendo que não adianta passar muita informação sobre o adversários aos jogadores.

O importante é que eles entendam e façam bem aquilo que são os nossos comportamentos com e sem bola. Quando dominamos isso, aí nós metemos o adversário na equação dando duas ou três dicas com e sem bola.

‘'Não consigo me lembrar dos troféus. Consigo me lembrar dos relacionamentos, dos afetos que criamos aqui, da família’'

Quando vamos ao cinema, ao final de um filme que durou uma hora e meia, te pergunto o que gostaste do filme. Tu gravas três coisas. Fica-te duas ou três coisinhas que viste no filme e estiveste lá uma hora e meia.

Então, se souberes bem essas duas ou três coisas, fantástico. Para mim, menos é mais. O difícil no futebol é jogar fácil. É isso que os jogadores têm que perceber.

Depois de 21 anos sem ganhar a Libertadores, título que havia vencido uma única vez em sua história, o Palmeiras do Abel Ferreira ganhou a principal competição sul-americana duas vezes seguidas, em 2020 e 2021. Agencia Gamba/Getty Images
Depois de 21 anos sem ganhar a Libertadores, título que havia vencido uma única vez em sua história, o Palmeiras do Abel Ferreira ganhou a principal competição sul-americana duas vezes seguidas, em 2020 e 2021. Agencia Gamba/Getty Images

No jogo de futebol, nós dependemos todos uns dos outros. Atingimos uma maturidade competitiva quando todos conseguem pensar a mesma coisa, ao mesmo tempo.

É quando a bola está no teu lateral-direito e todos entendem o que têm que fazer. É a mesma coisa sem bola. Quando a bola está no lateral-esquerdo deles, o que nós, coletivamente, temos que fazer?

O que me deixa contente é quando os atletas veem, fazem-no e, no final, nós lhes mostramos o que fizeram. E eles se convencem de que o caminho é aquele.

Sabendo que vamos perder, mas que o caminho é esse. Não pode ser a derrota a alterar o nosso caminho. A derrota faz parte do sucesso. É bom que as pessoas entendam isso.

Está tudo detalhado, ao pormenor, nesse livro que acho interessante e fácil de ler. Um livro que, acima de tudo, quero que eternize a família que conseguimos formar no Sociedade Esportiva Palmeiras.