Fotografía: Goran Stanzl/Pixsell/MB Media/Getty Images

Luís Castro

Shakhtar Donetsk, 2019- Presente

Cada um de nós tem um caminho percorrido. 

Esse caminho faz com que vivamos o jogo de uma determinada forma, em função de todas as vivências que tivemos na nossa trajetória.

Todos temos uma matriz, uma ideia que está mais cristalizada em nós. Porém, ela vai sendo moldada enquanto vivemos e absorvemos novas experiências.

Para mim, tudo começou como normalmente se dá com as crianças. Com uma bola no pé, na rua, na escola e na praia. Aquele jogo rudimentar, no qual somos só nós, a bola e os amigos à nossa volta é como nasce a paixão pelo futebol. Logo nos damos conta de um aspecto fundamental do jogo: sua competitividade. Todos querem ganhar. Esse apetite por vencer só aumenta com o passar do tempo.

Com o amadurecimento, passamos também a nos interessar pela forma como se ganha. Se na infância o que vale é ganhar, depois surge a vontade pela estética, pela estratégia, pela maneira de se construir o resultado desejado.

UFEA - Handout/UEFA via Getty Images

Aos 11 anos, comecei a jogar em um clube. A partir de então, a organização do jogo foi ganhando forma na minha cabeça. O jogo passa a ser mais organizado, mas ainda sem muita complexidade. Ela só vem com o profissionalismo.

A complexidade do jogo nos põe à prova e alguns respondem bem e outros, como eu, encontram mais dificuldades. Seja dificuldade técnica, física, psicológica ou tática. Se você falha em alguma dessas dimensões, começa a ficar para trás.

Mesmo com as minhas dificuldades, fui jogador até os 35 anos de idade. Quando gostamos muito de algo, queremos que nos acompanhe pela vida afora. Enquanto atleta, eu tinha um gosto intenso pelo jogo. Mas não se pode jogar até os 70 anos. Então, como faço para me manter ligado ao futebol depois de pendurar as chuteiras? Com este questionamento, nasce em mim o desejo de virar treinador.

“Ser treinador é ser destruído a cada dia de jogo, para voltar a se construir durante a semana até a próxima partida”

Fui capitão por 14 anos durante minha carreira de jogador. Muitas vezes, o capitão era eleito por uma votação dos próprios atleta. O grupo escolhia a mim, e eu me sentia bem ao desempenhar a função. Entendi que esta capacidade de liderar poderia ser o ponto de união para migrar à carreira de técnico. Ainda como atleta, tive uma experiência inusitada: comandar o time sub-13 do Águeda, clube pelo qual jogava. Gostei muito de experimentar aquela sensação.

Muitas vezes, dizemos que não se pode estipular regras para o futebol das crianças. O argumento é que as regras levariam os jovens a caminhos pré-construídos, tirando deles o prazer de descobrir o novo. Uma criança sem regras está no caos.

Eu optei por mostrar alguns caminhos às crianças, para que pudessem descobrir seus talentos. Assim que me aposentei como jogador, me foi oferecido o cargo de técnico principal do Águeda.

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images

Não há carreiras perfeitas. Cada um tem a sua. E todas elas têm dificuldades. Então, não é correto dizer que quem começou por cima, em um grande clube, não encontrou dificuldades. Dificuldade é algo intrínseco à carreira do treinador. Ser treinador é ser destruído a cada dia de jogo, para voltar a se construir durante a semana até a próxima partida. A dinâmica é esta. O técnico está em constante reconstrução.

O desconhecido sempre nos causa algum desconforto. O que vou encontrar? O que o adversário está preparando para nós? O que faço? Vou por aqui ou por ali? O quanto mais rica for a minha ideia de jogo, mais preparado estou para enfrentar as outras ideias de jogo. Um modelo de jogo bem rico tem várias formas de atacar e defender. É preciso saber ir por todo lado. Mas você vai encontrar equipes que não te deixam ir a lado nenhum. E te atropelam. Mas isso é outra conversa…

Eu já estava na Primeira Liga, de Portugal, no comando do Penafiel, quando recebi a proposta para ser diretor técnico das categorias de base do FC Porto. Eu teria que liderar mais de vinte treinadores da formação. Algo que nunca havia feito. Foi uma situação difícil porque me questionei se estava preparado para desempenhar aquela função.

Aceitei e passei sete anos no cargo, liderando processos e escolhendo profissionais.

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Às vezes, olhamos o conhecimento que cada pessoa tem para desenvolver determinada função. Eu vou sempre por outro lado: que valores humanos a pessoa tem para desenvolver o cargo? Se você escolhe pelos valores que a pessoa tem, será mais fácil que ela desempenhe um bom trabalho.

Só o conhecimento técnico, sem valores morais, pode fazer a casa ruir. Foi um período bom da minha vida. O trabalho no Porto é estrutural. Não é de uma, duas ou três pessoas. O que me interessava era ter bons líderes, bons técnicos que pudessem mostrar o melhor caminho para cada atleta se desenvolver.

Quando me dizem que fui treinador da equipe principal do Porto, pergunto: dá pra considerar que fui treinador ficando apenas três meses no cargo?

Eu cumpri uma missão de transição. Era um momento difícil porque praticamente não treinávamos. Estávamos na Liga Europa, na Taça da Liga, na Taça de Portugal e no campeonato. Era mais gestor do que treinador. Mais ou menos como acontece atualmente no calendário do futebol.

“Só o conhecimento técnico, sem valores morais, pode fazer a casa ruir”

Somos treinadores? Sei lá. Jogamos terça ou quarta e depois ao sábado ou domingo. E repete. Aí vem a pausa para os jogos das seleções, e podemos treinar ou descansar? Muitos jogadores vão defender suas seleções e voltam com dois ou três jogos feitos nesse período de suposta pausa.

Hoje, o treinador faz uma engenharia constante para escalar o time. O calendário permite jogar e recuperar. Não há tempo para grandes treinamentos. Por isso, vemos tamanha instabilidade em praticamente todos os times atualmente. Eu estava na equipe B do Porto e fui chamado para comandar o time principal. Não era o timing ideal para mim. Mas assim é a nossa profissão. As oportunidades nem sempre aparecem na hora que você imagina.

Gualter Fatia/Getty Images

Após esta breve experiência, retornei à equipe B do Porto e fomos campeões da segunda divisão. Foi a primeira vez que uma equipe B ganhou a competição em Portugal. Aquilo, reacendeu em mim o entusiasmo de ser treinador após tantos anos como dirigente.

Decidi que era hora de buscar novos desafios e o Rio Ave me abriu as portas. Tive a certeza que este era o meu caminho natural. Era nítido o meu prazer em ser técnico. Do Rio Ave, fui ao Chaves e terminamos o campeonato na sexta posição. Depois, comandei o Vitória de Guimarães e fomos quinto colocados no campeonato nacional. O que deu ao clube o direito de disputar a Liga Europa.

Esses trabalhos em sequência me trouxeram visibilidade. Com a temporada de sucesso com o Vitória, surgiram algumas propostas de trabalho. Da Ásia, África e Europa. Eu e minha comissão técnica optamos pelo Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Um clube que vem ganhando cada vez mais projeção no cenário europeu.

Felizmente, hoje posso dizer que fizemos a escolha correta.

Encontrei no Shakhtar um projeto muito interessante. O elenco mescla jovens talentos e jogadores experientes. O grupo é quase totalmente formado por brasileiros e ucranianos. Temos um georgiano e um israelita. A linguagem do futebol é universal. Quem joga, entende perfeitamente. Em campo, não há barreiras culturais ou de comunicação. O grupo se entende sem o menor problema.

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Há muitos anos, o Shakhtar tem jogadores fantásticos recrutados no Brasil. E tem feito grandes transferências com eles, além de tirar muito proveito desportivo desses jogadores. É uma fórmula certa, que dá sempre resultados positivos. O presidente do clube, com a sua administração, é quem comanda o projeto. A ideia, basicamente, consiste em identificar jovens talentos no Brasil e da academia do Shakhtar e dar tempo a eles para se adaptarem ao lado dos demais jogadores do elenco, que passaram pelo mesmo processo.

O projeto já se provou bem sucedido em todos os aspectos.

“Eu nunca invejei nenhum outro caminho. Segui o meu, encontrei obstáculos que pareciam intransponíveis”

Nós deixamos que se instalem hábitos em nós, não é verdade? Também encontrei um Shakhtar habituado a uma rotina desgastante. O conflito de Donetsk atingiu o clube, que precisou se mudar a Kiev. Os atletas passaram a viver e a treinar na capital do país. Porém, num primeiro momento, os jogos como mandante aconteciam em Lviv. Depois, passaram a ser em Kharkiv. E só há pouco tempo o clube começou a jogar em Kiev. Ou seja, por muitos anos a rotina de viagem era absurda.

No ano passado, fizemos provavelmente cerca de 90 viagens. Isso deixa marcas na equipe. Apesar delas, o clube se habituou àquela rotina extenuante.

A última temporada foi muito gratificante para nós, apesar da dor da derrota na semifinal da Europa League. Sentíamos que era possível ir mais longe. De qualquer maneira, foi um ano marcante. Não apenas pelo o que conquistamos, mas pela forma como conquistamos. Às vezes, ganhamos e queremos esquecer a forma. Neste caso, não. Eu quero ressaltar e valorizar a forma que construímos as vitórias.

Lars Baron/Getty Images

Eu nunca invejei nenhum outro caminho. Segui o meu, encontrei obstáculos que pareciam intransponíveis. Mas o futebol tem algo interessante: nada é impossível.

Qualquer time no mundo pode vencer qualquer adversário. Qualquer treinador pode treinar qualquer equipe. As coisas vão acontecendo. E você não deve criar barreiras para si próprio.

Deixar a vida acontecer não significa ter passividade. É obrigação se entregar ao máximo à profissão. O que acontece depois foge ao nosso controle. Estou fazendo o meu caminho. Fui ‘comendo’ divisões. Comi a distrital, a terceira, segunda e primeira divisões de Portugal. Veio a Europa League. A Champions League.

Quando você se dá conta, já passou por todas essas etapas. Aqui, estou.

Luís Castro

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