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Minhas raízes no futebol

Minhas raízes no futebol
Daniel Ribeiro/Coaches' Voice
Redacción
Álvaro Romeo
Publicado el
6 de octubre 2026

Carlos Vicens

Sporting Clube de Braga, 2025-Presente

Quando trabalhava como auxiliar técnico na ilha de Maiorca, viajei para a Inglaterra e visitei o Manchester City, onde deixei meu currículo.

O City não me respondeu imediatamente, mas eu estava preparado para o próximo desafio, fosse ele qual fosse. No futebol, é importante ter raízes sólidas, porque assim você sabe quem você é, mesmo em um dia ruim. Isso significa que você está sempre preparado para o próximo desafio, independentemente dos resultados anteriores.

Tanto minhas raízes pessoais quanto as futebolísticas estão em Maiorca, onde nasci e cresci. Meu pai era jogador de futebol e foi ele quem me introduziu nesse esporte. Comecei a jogar aos nove anos no clube da minha cidade. Posteriormente, fui contratado pelo RCD Mallorca, um time que costuma disputar a primeira divisão espanhola e que possui uma excelente base de formação. Foi um grande passo para mim passar a jogar na maior base de formação da ilha, com o sonho de chegar ao time principal.

Eu era um meio-campista magro e com as pernas arqueadas, capaz de dar bons passes curtos. Pelo meu estilo de jogo, meu primeiro treinador na base do Mallorca me deu o apelido de “Pep”. E, justamente, Pep Guardiola era um dos meus ídolos quando eu era jogador. Assim como o Pep, eu era o jogador que criava opções de passe na saída de bola da equipe.

Carlos Vicens jogou nas categorias de base do RCD Mallorca, clube que conquistou dois títulos entre 1998 e 2003. Na imagem, torcedores do Mallorca vibram pelo seu time. Shaun Botterill/Getty Images

Para mim, foi uma decepção não chegar ao time principal do Mallorca, mas minha paixão pelo futebol permaneceu e continuei jogando por mais alguns anos no nível semiprofissional na Espanha. Enquanto isso, estudei Economia na universidade. No último ano dos meus estudos, me mudei para os Estados Unidos, onde joguei no time da universidade antes de ser contratado por um novo clube chamado Austin Aztex. Jogar uma temporada com eles foi uma experiência fantástica; o clube era mais profissional do que eu esperava e os treinadores tiveram uma grande influência em mim.

Foi durante essa fase nos Estados Unidos que começou a crescer dentro de mim a ideia de me tornar treinador.

Quando voltei para a Espanha, comecei a obter as certificações de treinador e, pouco depois, tive a oportunidade de me tornar o técnico principal do CD Ses Salines, nas categorias de base. O momento parecia o ideal, já que eu vinha de uma lesão no tornozelo, e era uma excelente ocasião para dar esse passo.

"É preciso entender os jogadores como pessoas e como futebolistas que interagem entre si"

Ser técnico do CD Ses Salines foi um grande trampolim para minha carreira. Passei três anos lá, conquistando dois acessos consecutivos e, depois, evitamos o rebaixamento, sem sustos. Mais tarde, recebi a ligação do Club Esportiu Santanyí, um time pelo qual eu já havia jogado e que agora me queria como técnico principal. O clube passava por dificuldades financeiras, então tive que reconstruir o elenco com jogadores jovens e sem experiência na divisão. Aquela fase me permitiu conhecer o que significa ser técnico, pois, mesmo com um orçamento reduzido, consegui formar um time.

No entanto, tínhamos muita dificuldade para vencer partidas. Por isso, por volta de fevereiro, ficou claro que seríamos rebaixados, mas dava para perceber um progresso evidente na nossa forma de trabalhar. O clube valorizou nosso trabalho e me pediu para ficar. Nos dois anos seguintes, nos classificamos para os play-offs, mas não conseguimos o acesso. Me ofereceram a oportunidade de permanecer mais tempo no clube, mas decidi me concentrar em trabalhar apenas como auxiliar técnico.

Digo “apenas” porque, no meu último ano como técnico principal do Club Esportiu Santanyí, também havia sido auxiliar do técnico principal do CD Llosetense. Tratava-se de um time de Maiorca que jogava na terceira divisão, após ter conquistado o acesso na temporada anterior.

Foi uma experiência fantástica trabalhar ao lado do treinador, Nico López, na terceira divisão espanhola, conhecida na época como Segunda B. Lá, jogamos contra as equipes reservas do Valencia, do Villarreal e do Barcelona.

Apesar de termos sofrido o rebaixamento, decidi continuar trabalhando como assistente do Nico. Foi então que visitei o Manchester City e deixei meu currículo.

Embora tenham demorado um pouco para me responder, no ano seguinte tive o privilégio de voltar ao City para fazer um estágio. Não sabia quanto tempo ficaria no clube, mas o importante era ter a oportunidade de trabalhar lá e entender a maneira como eles conduzem as coisas.

"Mais cedo ou mais tarde, a FA Youth Cup tinha que voltar para o Manchester City, e tive a sorte de estar lá quando conseguimos"

Naquela primeira temporada, fui assistente de Adam Temple, que era o técnico principal das equipes Sub-12 e Sub-13. Também ajudei a equipe Sub-11 em algumas tardes e ficava com o que chamavam de “City Select”, um grupo de jogadores que o clube considerava ter potencial para fazer parte da academia. Foi uma experiência incrível, porque eu podia dedicar muitas horas a isso. Mas também foi difícil, por não saber o que o futuro me reservava.

Por sorte, na temporada seguinte surgiram algumas vagas no clube, e o diretor da academia na época, Jason Wilcox, sugeriu que eu me candidatasse. Durante o processo de seleção, consideraram que eu tinha potencial para trabalhar com as categorias mais velhas, já que havia atuado como técnico principal na Espanha. Me ofereceram o cargo de assistente técnico da equipe Sub-18, trabalhando com o técnico principal, Gareth Taylor, a quem eu conhecia melhor como Gaz.

Aprendi muito com ele e continuamos sendo muito bons amigos. Quando Gaz decidiu assumir o cargo de técnico principal da equipe feminina do Manchester City, o clube me ofereceu o cargo de técnico principal da equipe Sub-18. Acho que eu era o único técnico não britânico da liga Sub-18.

Carlos Vicens teve uma passagem de sucesso pela equipe sub-18 do Manchester City antes de se juntar à comissão técnica de Pep Guardiola. Charlotte Tattersall/Getty Images

Conquistamos a FA Youth Cup após derrotar o Chelsea na final, o que foi muito especial porque, por um motivo ou outro, não tínhamos conseguido vencê-los nas edições anteriores da competição. Gaz e eu já estávamos lá quando a equipe chegou à final um ano antes, mas perdemos nos pênaltis para o Liverpool. Mais cedo ou mais tarde, a FA Youth Cup tinha que voltar para o Manchester City, e tive a sorte de estar lá quando conseguimos.

Depois daquele ano, recebi uma ligação do diretor esportivo do City, “Txiki” Beguiristain. Havia duas vagas na equipe principal, pois Brian Kidd havia se aposentado e Nicolás Jover havia se transferido para o Arsenal. Txiki me ofereceu um cargo de assistente na comissão técnica da equipe principal de Pep Guardiola. Acabaria sendo uma passagem de quatro anos trabalhando para ele.

Pep era um dos meus ídolos, não só daquela época em que eu jogava e me chamavam de “Pep”, mas também como técnico. Aceitei o cargo com humildade e muita vontade de ajudar.

Fazer parte de sua comissão técnica foi uma experiência incrível, mas também uma grande responsabilidade. Ele dá muita liberdade para você trabalhar. Ao mesmo tempo, você não quer decepcionar ninguém: nem a ele, nem ao resto da comissão técnica, nem aos jogadores.

Carlos Vicens, fotografado durante o treino ao lado de Enzo Maresca, Pep Guardiola e Rodolfo Borrell. Lindsey Parnaby/AFP para Getty Images

Por isso, tive que me atualizar sobre tudo relacionado à equipe principal o mais rápido possível. O Pep está sempre pensando a mil por hora, então você precisa estar preparado para o desafio. Não porque ele te pressione, mas porque você quer estar à altura das expectativas dele. Se ele decide que você é bom o suficiente para ser um de seus assistentes, você quer corresponder a essa confiança. É preciso demonstrar humildade, mas também confiança no trabalho que está realizando. Sim, você trabalha com alguns dos melhores jogadores do mundo, mas, ao mesmo tempo, eles continuam sendo pessoas normais.

No time principal e em seu entorno já havia jogadores que eu conhecia da minha passagem pela base, como Cole Palmer, James McAtee, Oscar Bobb e Roméo Lavia. Para eles, foi positivo me ver: era um rosto conhecido, alguém que os entendia como jogadores e como pessoas, o que também facilitou a transição deles para o time principal.

Fui encarregado das jogadas de bola parada. Não era algo que eu já tivesse feito especificamente para outro técnico, mas já havia me ocupado disso como técnico principal na Espanha.

Entender as particularidades de como se trabalhava na equipe principal foi o verdadeiro desafio. Consegui ajudar com pequenas contribuições para que os jogadores pudessem ter um bom desempenho. Tentava manter as coisas o mais simples possível, devido à agenda lotada de jogos que os jogadores tinham com o clube e a seleção.

Mas uma das minhas ambições era voltar a ser técnico principal.

Quando o S.C. Braga demonstrou interesse em me contratar, conversei com o Txiki e o Pep, que me apoiaram muito. Isso me ajudou no processo de transição de Manchester, onde passei oito anos, para Braga.

"Se o respeito, a responsabilidade e o compromisso estão enraizados, então nossas raízes serão sólidas"

Eu havia sido contratado por um clube de ponta na Europa, algo que há muito tempo eu desejava alcançar. Mas não havia muito tempo para me preparar, pois o Braga estava disputando as eliminatórias da Liga Europa. Isso significava que nossa pré-temporada começaria durante a pausa de verão. Enquanto isso, eu precisava montar minha comissão técnica, o que é um dos desafios que você enfrenta ao passar de assistente para técnico principal. Também precisava conversar com o clube sobre possíveis contratações, conhecer os novos jogadores e estabelecer meus princípios inegociáveis.

Os desafios surgiram desde o início. Eu precisava vencer partidas enquanto a equipe ainda estava em processo de desenvolvimento, estava em um país que não conhecia muito bem e tínhamos que disputar muitos jogos. Quando chegou a primeira data Fifa, já tínhamos disputado 10 partidas, enquanto a maioria das equipes do campeonato havia jogado apenas quatro. No início de fevereiro, já tínhamos disputado 42 jogos oficiais.

Na temporada 2026/27, o SC Braga disputará a Liga Conferência da UEFA, após terminar em quarto lugar no campeonato na temporada passada. Christian Bruna/Getty Images

Superamos muitos desafios naquela temporada, consolidando uma identidade clara em nosso estilo de jogo, tanto com a bola quanto sem ela. Para a data Fifa de outubro, já tínhamos alcançado um nível que mantivemos durante o resto da temporada.

Fomos o primeiro time português a chegar a uma semifinal europeia em 12 anos e estivemos prestes a levar a partida de volta da Liga Europa contra o Freiburg para a prorrogação, onde tivemos que jogar 85 minutos com 10 jogadores. Além disso, conquistamos o quarto lugar no campeonato com folga, depois de reverter uma enorme diferença. E fizemos isso com uma identidade clara, marcando muitos gols. Embora pudesse ter sido ainda melhor: ainda temos margem para evoluir.

Pau Victor, atacante do SC Braga, disputa a bola com dois jogadores do Freiburg durante o jogo de volta da semifinal da Liga Europa 2025/26. Daniela Porcelli/Getty Images

Tenho meu próprio estilo de jogo, mas não perco de vista que são os jogadores que precisam dar o melhor de si e jogar. O futebol pertence aos jogadores. Pode parecer um pouco vago, mas preciso encontrar ajustes relacionados à forma como os jogadores interagem, para que possam se expressar da melhor maneira possível em campo. É preciso entender os jogadores como pessoas e como futebolistas que interagem entre si. São seres humanos que têm dias bons e dias ruins. Eles vão interagir mais com aqueles com quem têm afinidade ou proximidade.

Levo isso em conta na hora de planejar meus treinos, as escalações e as estratégias de jogo. E nunca esqueço quem estou treinando. Esse é o aspecto mais importante da minha filosofia como técnico.

"No Braga, criamos uma cultura que surge dos valores da cidade, baseada no respeito, no compromisso e na responsabilidade"

Enquanto isso, temos que jogar para vencer, mas como queremos vencer? E, o que é mais importante, quando chega a derrota, que tipo de time queremos ser? É uma boa pergunta para nós, treinadores, porque provavelmente as derrotas definem nossa identidade mais do que nossas vitórias.

Criar uma cultura de equipe foi um dos principais objetivos quando cheguei ao Braga. Para mim, o comportamento é medido pelas ações. Essas ações não precisam ser grandiosas. Tudo começa com pequenos hábitos e pequenos detalhes que fazem uma grande diferença a longo prazo. No Braga, criamos uma cultura que surge dos valores da cidade, baseada no respeito, no compromisso e na responsabilidade. Se você percorrer todos os dias os corredores do clube, poderá compreender essas raízes. Se o respeito, a responsabilidade e o compromisso estão enraizados, então nossas raízes serão sólidas.

Carlos Vicens posa em frente a um mural com lendas do SC Braga. Daniel Ribeiro/Coaches’ Voice

A tática, as ideias e o estilo de jogo são muito importantes. Mas, se não houver uma cultura sólida dentro da nossa equipe, uma sequência de maus resultados ou atuações pode nos fazer mudar de rumo. Quando os valores e a cultura da equipe são sólidos e claros para todos, fica mais fácil colocá-los em prática e definir uma identidade de jogo. Todos saberão o que estamos tentando alcançar.

E, em um dia ruim, saberemos quem somos e o que precisamos fazer.

Carlos Vicens