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Subir a pirâmide

Subir a pirâmide
Daniel Ribeiro
Redacción
Felipe Rocha
Publicado el
23 de enero 2026

Vasco Botelho da Costa

Moreirense, 2025-Presente

Há uma tentação de dizer que treinar na primeira divisão é difícil. Nas divisões inferiores, porém, a realidade é bem diferente. A maior dificuldade é fazer muito com pouco. É manter-se profissional no ambiente amador das camadas mais baixas do futebol.

Por que digo isso? Bem, antes de chegar à Primeira Liga, passei por todos os escalões do futebol português.

A estrutura de trabalho que tenho no Moreirense facilita a vida de qualquer treinador. Tenho uma comissão técnica composta por oito profissionais, que me ajudam a preparar o treino, a analisar o adversário e a nossa própria equipe. O clube tem fisioterapeutas, nutricionistas, assessoria de imprensa e campos de treinamento de ótima qualidade.

Vasco Botelho da Costa começou sua carreira no futebol de base para escalar a pirâmide até o futebol profissional. Vasco Botelho da Costa

O contexto é incomparável com as chamadas categorias distritais - competições organizadas pelas associações regionais, que formam a base da pirâmide do futebol em Portugal. Era comum treinarmos em campo dividido em quatro ou cinco partes para que diferentes escalões o usassem ao mesmo tempo. Às vezes, tínhamos cinco bolas para treinar 30 miúdos.

Além de ser treinador, eu tinha de ser motorista para levar os meninos ao campo, tinha de preencher a ficha de jogo, estar atento às matrículas… Não adiantava gostar apenas de ser treinador. O pacote envolvia muitas outras funções.

"Antes de chegar à Primeira Liga, passei por todos os escalões do futebol português"

E tudo isso, a receber um ordenado simbólico. Não era possível viver exclusivamente do futebol. Ao longo dos meus 12 anos nas distritais, eu dei aulas em escolas e fui personal trainer para completar a renda.

Por isso, quando falam sobre a minha pouca idade - o que acontece com frequência -, honestamente não dou nenhuma importância ao tema. Prefiro valorizar as experiências que adquiri nos meus doze anos nas distritais e nos últimos sete anos nas divisões nacionais. Consciente, porém, de que a experiência por si só tampouco vale muito se não soubermos o que fazer com ela.

Botelho da Costa é um perfil emergente no futebol português, com foco no desenvolvimento de jovens talentos e experiência recente na elite. Daniel Ribeiro

A minha jornada como treinador começou no Dramático Cascais, clube da região onde nasci. Era lá que eu jogava futebol quando, aos 17 anos, fui convidado para ser auxiliar técnico do sub-7. Naquela altura, eu ainda achava que seria engenheiro mecânico. O meu sonho era trabalhar na Fórmula 1.

Essa experiência acabou por ser transformadora na minha vida. A oportunidade de organizar treinos e acompanhar o desenvolvimento das crianças foi muito prazerosa. E, então, deixei de lado a engenharia e o meu sonho de chegar à Fórmula 1, e fui estudar desporto.

"A experiência por si só tampouco vale muito se não soubermos o que fazer com ela"

Passei 12 anos no Dramático Cascais, desempenhando as funções de auxiliar técnico e treinador em todos os escalões, do sub-7 à primeira equipe. Com o sub-19, conseguimos o acesso da segunda para a primeira divisão distrital.

O trabalho chamou a atenção do Estoril Praia, um clube de um patamar competitivo superior. O Estoril disputa as principais competições nacionais. Mas a proposta que eu havia recebido era para treinar o sub-11 e, naquele momento, já com a faculdade concluída, eu me sentia pronto para dar passos maiores.

Com o sub-23 do Estoril Praia, Botelho da Costa conquistou duas vezes o título nacional. Vasco Botelho da Costa

Em 2018, o Estoril voltou a aparecer com uma oferta mais robusta: assumir o comando da equipe sub-17, escalão que tem uma boa visibilidade em Portugal.  Aceitei o desafio e, a partir daí, a minha carreira ganhou novos rumos.

No Estoril, passei do sub-17 ao sub-19, antes de assumir, em 2020, o comando da equipe sub-23. Foi apenas nesse momento que pude, enfim, abrir mão dos outros trabalhos paralelos ao de treinador. Eu estava com 29 anos de idade.

Com o sub-23, vencemos basicamente tudo o que era possível. Duas vezes. Ou seja, ganhamos a liga nacional e a taça nacional na temporada 2020/2021. E como superar esses resultados não era possível, tratamos de repeti-los em 2022.

"Deixei de lado a engenharia e o meu sonho de chegar à Fórmula 1, e fui estudar desporto"

Além das conquistas esportivas, pudemos valorizar jogadores - o que rendeu benefícios econômicos ao clube - e promover muitos deles ao time principal do Estoril.

O Estoril Praia queria que eu seguisse no sub-23, mas eu queria um novo desafio. A minha vontade era assumir uma equipe principal. Pedi demissão e, semanas depois, assinei com a União de Leiria.

Botelho da Costa soma mais de cem vitórias no futebol profissional português. Daniel Ribeiro

Foi a minha primeira grande oportunidade como treinador de uma primeira equipe. E justamente em um clube de muita tradição, que já foi treinado por José Mourinho, Jorge Jesus e Manuel José, três dos principais treinadores não apenas de Portugal, mas do mundo. O momento do Leiria, porém, era desafiador: o clube estava na terceira divisão nacional havia 11 anos.

Em nossa primeira temporada, conseguimos o tão esperado acesso à Liga 2 com o título da liga nacional. Vencemos o Belenenses, outro clube tradicionalíssimo, na final da competição. Mais uma vez, além dos resultados esportivos, sinto orgulho por ter valorizado os jogadores e, principalmente, por ter ajudado a cidade de Leiria a se reconectar com o clube.

"Costumo dizer que eu e minha comissão técnico precisamos de sete ou oito rodadas para que comecemos a ver a nossa identidade em uma equipe"

Na temporada seguinte, os desafios foram ainda maiores na segunda divisão. Mas conseguimos fazer uma campanha segura na liga, mantendo distância para a zona do rebaixamento, além de termos alcançado às quartas de final da Taça de Portugal - algo que o clube não conseguia havia 20 anos -, quando fomos derrotados pelo Sporting, de Ruben Amorim.

Como eu já havia tomado a decisão de não prosseguir no clube na temporada seguinte, cheguei a um acordo com a diretoria para deixar o comando na reta final da campanha na segunda divisão. Assim, o novo treinador teria mais tempo para preparar o próximo ano.

Antes de sua atual passagem pelo Moreirense, Botelho da Costa treinou o Estoril Praia, o UD Leiria e o Alverca. Vasco Botelho da Costa

O meu desafio seguinte seria novamente na Liga 2, no Alverca. O clube tinha acabado de ser promovido à segunda divisão. Portanto, o principal objetivo era a manutenção na liga. Chegamos ao Alverca na quinta rodada da competição. A equipe ainda não havia vencido: tinha três empates e uma derrota.

Costumo dizer que eu e minha comissão técnico precisamos de sete ou oito rodadas para que comecemos a ver a nossa identidade em uma equipe. Isso se deve à nossa forma de treinar, de transmitir o conteúdo e da adaptação dos jogadores. Sete ou oito rodadas costumam ser suficientes para vermos os primeiros sinais de nosso estilo.

No Alverca, após esses primeiros jogos, não apenas víamos sinais de nossa identidade, como sentíamos a construção de algo especial. Lembro que na metade do campeonato, quando estávamos na oitava posição, perguntei aos jogadores o que queriam alcançar na liga. ‘'Queremos a promoção, mister. Sentimos que podemos vencer qualquer adversário.’’

A proposta de jogo e a gestão das equipes de Botelho da Costa conectam-se com os jogadores e os torcedores. Vasco Botelho da Costa

Não era uma frase protocolar, dita da boca para fora. Eles sabiam que a meta era palpável. E aquela era uma sensação compartilhada por todos no clube. 

Na segunda metade da competição, ajustamos alguns detalhes para que tivéssemos mais solidez defensiva, o que nos ajudou a vencer praticamente todos os confrontos contra as equipes acima de nós na classificação. Terminamos a liga na segunda posição, promovidos à elite do futebol português, algo que o Alverca não conseguia havia 21 anos.

Mas o Alverca atravessava uma reestruturação em sua diretoria, e estava difícil saber ao certo qual seria a ideia do clube para a temporada seguinte. Assim, decidi buscar novos ares e abracei o projeto apresentado pelo Moreirense, que também disputaria a Primeira Liga na temporada 2025/2026.

Houve uma identificação imediata entre mim e os representantes do Black Knight, grupo que se tornou acionista majoritário do Moreirense e que também gerencia o Bournemouth, o Auckland FC e o Lorient.

Botelho da Costa construiu sua carreira com tempo e paciência, um guia que seguirá em seus próximos passos. Daniel Ribeiro

O que mais faz sentido para mim, enquanto treinador, é haver uma comunhão com o projeto de futebol. O projeto é feito de pessoas e, quando todas estão unidas, ganha-se um atalho enorme para o sucesso.

Claro que tenho as minhas ambições, como qualquer profissional. Mas trato de focar no que está ao meu alcance, sem perder tempo a pensar nas dificuldades. O resto, fica a cargo do tempo e do mercado.

O início de trabalho no Moreirense tem sido muito positivo. Espero que, juntos, possamos levar o clube a voos mais altos.

Vasco Botelho da Costa