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Tite

Seleção Nacional do Brasil, 2016-Presente

O Perfil:

Se confirmada a permanência no comando da Seleção Brasileira para a Copa de 2022, Tite terá uma chance muito rara: treinar o Brasil em duas Copas do Mundo. Apenas Mário Zagallo, Luiz Felipe Scolari, Carlos Alberto Parreira e Telê Santana tiveram a mesma chance (Zagallo, Tite e Telê puderam continuar na Seleção após uma eliminação em Copa).

A capacidade de manter uma equipe organizada e sincronizada em todas as fases de jogo é o que fez de Tite um técnico reconhecido por levar seus times a terem grandes atuações, como o 2 a 0 do Corinthians sobre o Boca Junior, na final da Taça Libertadores em 2012. Em três passagens no Corinthians, se tornou campeão de praticamente tudo mantendo uma ideia de jogo sólida. Em outros trabalhos, como Grêmio e São Caetano, ele formou equipes campeãs do zero e deu uma organização então inédita no futebol brasileiro.

Inspirado por Ênio Andrade, técnico campeão pelo Grêmio e Coritiba, e por Luiz Felipe Scolari, Tite mantém o estilo de bom gestor de grupos e amigável com os atletas. Geralmente é muito político e educado, sem deixar o comando do grupo de lado. A essa característica se soma um perfil estudioso e interessado em questões táticas do jogo. Em 2006, Tite passou a Copa do Mundo num grupo de estudos. Em 2014, ele viajou até a Espanha para visitar o Real Madrid. Das conversas com Carlo Ancelotti, trouxe métodos inovadores para o Brasil. Essa mistura rendeu o Campeonato Brasileiro em 2015 ao treinador, com um futebol rápido e envolvente que o credenciou para asumir a Seleção.

Estilo de jogo:

Grande parte do sucesso de Tite da qualidade dos sistemas defensivos de seus times. O treinador foi um dos primeiros, junto com Mano Menezes, a adotar a marcação zonal no Brasil. Um dos pilares do sistema de Tite é o posicionamento da linha de defesa através de um 4-1-4-1. Sempre estreia, alinhada e em frente ao gol, ela deve proteger o goleiro e a área de possíveis ataques adversários (baixa).

Tite chegou na Seleção Nacional em 2016. Era o técnico moderno e atualizado que o brasileiro tanto pedía. As primeiras partidas provaram que o clamor popular tinha razão: foi apenas uma derrota (Argentina) nos primeiros 40 jogos.

Entre 2016 e 2017, o sistema da Seleção era rápido, fluído e ofensivo. Partindo do mesmo 4-1-4-1 dos tempos de Corinthians, Neymar e Willian – muitas vezes também com Philippe Coutinho – formavam o ataque junto a Gabriel Jesus e ganhavam a companhia de Paulinho, autor de três gols na vitória de 4 a 1 sobre o Uruguai, como um típico volante infiltrador, lembrando muitas vezes Falcão, mítico volante do Internacional e Roma. O time trocava passes curtos e Willian e Neymar se movimentavam para criar espaço para as chegadas do lateral e de Paulinho.

Essa mentalidade ofensiva se unia à rígida organização defensiva que Tite sempre coloca em suas equipes. Na vitória de 1 a 0 sobre a Alemanha, no início de 2018, o Brasil teve menos posse de bola e mostrou uma linha de quatro defensores rígidas e marcando por zona. Com Tite, a Seleção passou a marcar por zona pela primeira vez em sua história.

Mas os planos do técnico mudaram durante a Copa do Mundo. Renato Augusto, ex-jogador do Bayern Leverkusen, se lesionou. Tite escolheu Philippe Coutinho como seu substituto, o que de certa forma quebrou a articulação das jogadas no 4-1-4-1 pretendido pelo treinador. O time perdeu os passes curtos e a visão de jogo de Renato, e passou a ter muita profundidade (baxio), já que Coutinho é muito mais atacante do que meia.

Para piorar, a Copa do Mundo mostrou sistemas defensivos tão compactos que Tite precisou mudar um pouco o estilo de jogo e apostou num jogo mais posicional para quebrar a defesa. Coutinho foi do Barcelona para o Bayern e não consegue repetir as atuações em alto nível, o que causa dúvidas se ele realmente deve compor o elenco da seleção.

Copa América 2019:

Esse novo sistema, partindo do mesmo 4-1-4-1, mas com atribuições diferentes para cada jogador, resgatou novamente a ideia de misturar as funções dos laterais. Quem cresceu de rendimento assim foi Daniel Alves (baixo), melhor jogador da Copa América. Como um autêntico box-to-boxele pensava e articulava as jogadas de ataque junto a Arthur e conectava passes longos para Neymar, Gabriel Jesus e Firmino, que deu mais mobilidade e cria espaços no ataque.

O Brasil mostrou dois sistemas bem diferentes. Um deles foi mais fluído, pensado para condições normais de jogo, com adversários que fornecem mais espaços. No mesmo 4-1-4-1 de sempre, Neymar e Firmino se movimentam pelo centro do ataque, enquanto Gabriel Jesus busca ocupar os lados e abrir espaço para as chegadas de um meio-campista, que hoje é a principal dúvida de Tite para o sistema. Arthur (abajo), um meio-campista comparado a Iniesta e Xavi pela habilidade e controle de bola, tem dificuldades para ser mais fluído e ocupar o campo de ataque. Tite reconhece que precisa a jogador de área em área. Bruno Guimaraes (Lyon) e Allan (Napoli) foram tentados sem sucesso.

Enquanto procura pelo que chama de seu ritmista, Tite descobriu em seus laterais uma habilidade de pensar o ataque como pouco vista. Na Copa América, Daniel Alves e Filipe Luís jogaram mais centralizados, abrindo espaços pelo meio-campo, jogando com o corpo de frente para a área e tocando passes curtos entre a defesa e o ataque. Assim como Lahm e Alaba com Guardiola, eles são “falsos laterais”. Nesse estilo, o Brasil adota um ataque essencialmente posicional, com Gabriel jesus aberto, Firmino e Coutinho por dentro e Dani e Luís construindo na linha dos volantes.

A dúvida sobre qual sistema manter no Brasil é uma constante na carreira de um técnico tão inquieto como capaz de organizar times com pouco tempo. Durante quase cinco anos no Corinthians, Tite pensou ao menos cinco sistemas diferentes – alguns com maior ou menos sucesso.

Em um ano no Internacional, entre 2008 e 2009, montou dois times diferentes, usando inclusive pela única vez um 4-3-1-2 que possibilitava a Nilmar e Alex uma fluidez e troca de posição grandes no ataque. Em poucos meses no Palmeiras, salvou o clube do rebaixamento com um 3-4-2-1 que deixava Edmundo, aos 37 anos, sem obrigações defensivas.

Desde que ganhou o Campeonato Gaúcho pelo Caxias, em 2000, e surpreendeu o Brasil com o Grêmio em 2001, Tite segue priorizando a organização. E vem dando certo.

Tite

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